terça-feira, 24 de março de 2009

Branco-Azul

Como falei no primeiro post, essa seção é aberta pra quem quiser aqui expor seus escritos, também pode, só me enviar um e-mail. Este que vos apresento agora, vem de uma amiga que conheci não a muito tempo. Carol Koy. Vlw pela contribuição Koy.

Só porque planejei o sonho numa praia, o que veio foi algo como montanhas cobertas de neve; muitas e estilosas roupas, não só o biquíni ou a bermuda. A melodia do vento era fria e cortante, não aquele bafo quente e gostoso que sobra da vizinha África. A prancha é quase a mesma, mas não é pra subir até a crista da onda, e sim pra descer uma encosta. A luz da criação não é o azul-amarelo do mar, mas o branco-azul das montanhas. Não se toma água de coco, mas chocolate quente. Não é saudável, mas é preciso esquentar os ossos. A música não é aquele reggae de violão, e sim um rock de guitarras e baterias. No salto de esqui, o baixo faz tremer até os ossos, não só de frio, mas também de emoção. O atleta está voando. Não respira. Ninguém respira. Pousa suavemente. Suave é o rodopio da bailarina na pista de gelo. O baixo agora é acústico. Orquestra. Strauss. E mais chocolate quente. Pode ser chá também, mas é amargo. Ou chimarrão, pior ainda. Não era suave na pista de gelo? Mas que salto perfeito... ela também está voando. Na pista de gelo. O disco de hóquei. Agora já não é nada suave. Se uma partida de hóquei terminar sem uma briga, não foi um jogo de verdade. Violento. A descida de trenó naquela rampa. É demais. Voando novamente, agora no teleférico.

Chega de olhar, é hora de tentar. Descer a montanha de snowboard. É preferível morrer afogado no mar, a quebrar todos os ossos na montanha. Sensação de liberdade. Mas os pés estão presos, só dá pra ir pra onde todos foram. E as lombadas. Quem disse que pra baixo todo santo ajuda? Mas não existe o santo dos esportes de inverno, ou então ele foi ver as manobras radicais na rampa. Que, no fim das contas, é melhor do que o skate, a prancha está colada nos pés. Essa rampa, essa prancha, permitem dar um 360, um 900, ficar girando sem parar, ela não vai sair do pé. As guitarras estão se rasgando. Que solo! Agora se acalmaram. Pôr do sol. Afinal, é preciso lembrar de Quem teve a brilhante idéia de inventar a neve. O mar também, mas o mar é outro sonho, outro pôr do sol. Ele é bem diferente nas montanhas. O pôr do sol. Coloriu tudo. Com todas as cores. Ou só ficou tudo sempre branco-azul, o tempo todo?

Noite. À noite todos os gatos usam sobretudo, casaco, colete, blusa de frio, camiseta, regata, gorro, tá frio, várias calças, duas ou três meias, descer a montanha rolando agora; é suficiente um calçado. Cachecol. Pra bagunçar o cabelo, tira dela o cachecol branco e o gorro azul. Coloca um roxo, não tá na moda? Mas nada de saída de banho roxa, na praia basta a canga azul, o amarelo do mar contrasta bem. Música. O violão do mar chegou na montanha. Trouxe o clima do mar, trouxe não, aquilo é só a guitarra versão noite. Chega de chocolate, agora vai de suco. Gelado. Ninguém vai congelar.

Enfim, a parte comum, praia e montanha. Achar um lugar legal pra ver a Lua; a noite desliza no gelo, joga bolas de neve. Ela bate em todos os alvos. Os corações também são alvos. A Lua fica conversando, não, ela não está segurando vela, ela pode ficar, é a iluminação natural. O que falta agora? A Lua não já está dando aquele empurrão? Pode falar, a Lua é cúmplice. Dos ensaios de liberdade. Dos sonhos. Dos sonhos acordados e dos dormidos. O Orion está aí, vendo tudo sempre, mas ele é só a parte da segurança. As três Marias fazem a intersecção. Não céu-homem, só a parte de cima da constelação com a de baixo.

Pra onde vai. Mas é longe. Mas um dia... Volta? Mesmo assim, continua sendo longe. Fala logo pra Lua, ela resolve. Rouba um beijo. Abençoado. Gelado. A Lua, a cúmplice, abraça. Mas ela é diferente da lua da praia. Aquela aproveita certa ausência... esta aproveita certo excesso... A Lua, essa confidente, não quer ir embora, mas a nuvem é intrometida. Veio desabraçar. Hoje não, hoje não é cinza-preto, hoje é branco-azul, a festa é da Lua. E só acaba quando ela for. Mas a Lua gostou, rouba outro beijo. Lua gatuna, esperta. Ela estava lá desde o sol branco-azul. Não, ela não só pensa em abraços e beijos. Ela estava lá desde o sol branco-azul. Não, ela está aí e não abre, como diria o pára-quedas. Mas não precisa se preocupar, o saltador correu e saltou de asa delta.


A Lua está chamando, volta que o beijo está bom, mas a Lua é vaidosa, prefere abraçar, assim dá pra ficar olhando pra ela. Pra a Lua. Sonhando. Talvez outro dia, quando o sol vier e levar os sonhos pra o mundo real, ou mesmo pra o mundo azul-amarelo, talvez a Lua passe por lá. Mas lá, na praia, no mundo do sol, o abraço, o beijo, o sonho, o salto, o som, a música, a prancha, o pôr do sol, tudo é azul-amarelo, a Lua precisa tomar cuidado. Ela, a Lua, prefere um lual azul-branco a um azul-amarelo. Assim é um solal, o sol que abraça e desce na prancha, o sol é mais esperto (ele acha), e a Lua é mais sábia (ela acha), ele vai acabar transformando qualquer sonho branco-azul em azul-amarelo. Mas ela não vai deixar, os sonhos sempre são abraçados por ela; quando ela chega, transforma o violão em piano, esfria o sonho, e abraça branco-azul.

Por BegoniaKoy.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Nariz - Luís Fernando Veríssimo

Apresentado por um amigo e sentindo idenficação no mesmo momento, apresento para aqueles que ainda não conhecem mais uma obra de arte de um escritor nacional.

O Nariz

Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sombrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
- Isso o quê?
- Esse nariz.
- Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
- Logo você, papai…
Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias.
A mulher impacientou-se.
- Tire esse negócio.
- Por quê?
- Brincadeira tem hora.
- Mas isto não é brincadeira.
Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta.
A mulher o interpelou.
- Aonde é que você vai?
- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
- Mas com esse nariz?
- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz…
- Pense nos vizinhos. Pense nos cliente.
Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor…”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
- Ele enlouqueceu?
- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos.
– Nunca vi ele assim.
Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
- Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.
- Mas, por quê?
- Por quê não?
Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.
- Papai…

- Sim, minha filha.
- Podemos conversar?
- Claro que podemos.
- É sobre esse nariz…
- O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
- O nariz é meu e vou continuar a usar.
- Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
- Não tem porque não quer…
- Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?
- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.
- Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
- Se não faz diferença, porque não usar?
- Mas, mas…
- Minha filha…
- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!
A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.

- Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho…
- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar, Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes.
- Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
- É… – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão…
O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.